O LENTO ARFAR DAS NUVENS

 

(A propósito da fotografia de Marcos Cesário

e de Marcos Cesário, fotógrafo)

 

As mãos seguram o dia, adensam-lhe as cores, erguem junto à boca o gesto supremo de espanto, prolongam a exposição aos desencantados horizontes da palavra e, focado o silêncio côncavo de todos os cristais, libertam os vestígios submersos que incandescem a paciência e erguem, em cúpula inabitável, o lento arfar das nuvens. E há pálpebras que habitam o rumor das aves, a fragrância dos rituais do amor, a voz das tardes por entre a respiração das dúvidas: uma oração submersa nas mãos de água com que as crianças tecem a alucinação da alegria. E os corpos brilham como orquídeas matinais,veludo de gesto sem cor que a lucidez transforma nas dissonâncias de um vitral de sombras; junto ao leito sôfrego dos rios, os sorrisos libertam a ter-

-nura de todas as visões. Do lado de lá da objectiva, eis Marcos Cesário a esgravatar caminhos, calcorreando a transparência do

 

JOSÉ ANTÓNIO FRANCO

seu olhar insatisfeito, definitivamente comprometido com a necessidade de levantar, pedra a pedra, os mapas da humana existência: o confronto com o esquecimento, a dor, a morte ou a geografia dos excessos onde espaço, olhar e emoção se desafiam. O essencial é definir as fronteiras de cada enigma, legitimar a simbologia do imponderável, como se a imagem fosse a única narrativa, um projecto sem contornos distorcendo a nostalgia da peregrinação à experiência humana na sua relação com o mundo. Trata-se, em última análise, da revelação urgente dos vínculos mais intensos com os objectos e cenários que cercam o nosso abandono diário: uma reflexão sobre a natureza da infinitude dos nossos instintos. Um discurso sobre a urbanidade das emoções, sobre a explosão onírica da nossa breve passagem pelos lugares que marcam um percurso único por sendas de espuma, concentrações policromáticas de ventos serenos numa odisseia com matizes de jardins matinais que uma cidadania — a maior parte das vezes — abúlica, desequilibrada e paradoxal não consegue enxergar. Conhecendo o ritmo telúrico de cada um dos seus temas, Marcos Cesário, aí está, palpitando em cada retrato do mundo onde a sua alma inquieta e apaixonada transparece. Ardem murmúrios e os sons nupciais do desejo agitam-se entre asas de cor incerta. As visões de êxtase que fluem dos flancos magníficos das árvores, atravessando a transparência das horas iniciais, reconstroem os mistérios que povoam a tarde com outras danças e folguedos ancestrais; o grito, o derradeiro esplendor da verdade, atravessa o sopro nocturno dos insectos mergulhados na acalmia lunar. E todos os gestos são instrumentos de uma alquimia do gosto que restaura a claridade de todas as celebrações. Marcos Cesário, tanto quanto um operário do olhar, é um trabalhador incansável da paixão, um tratador de raízes com desdéns de menino que não pára de crescer. (Nem de sofrer!) Depois, o verde lunar cinge vozes e voos e sílabas e desejos num ritual cósmico de beleza fulgurante; as cores libertam-se, os focos desertam, os campos desabam, as escalas dissolvem-se, o tempo implode e a luz, essa, dispara como se todos os cromatismos e relações na composição agissem inevitável e directamente sobre o centro do mundo, sobre o coração que vê e ama todos os contrastes. É o sortilégio da criação, a celebração de cada elemento no altar estético da reconversão do que guardamos na memória instantânea dos crepúsculos; um jogo de contrários na periferia de uma barricada em que trocamos a nossa vida por um naco de céu, uma semente de perfeição ou a promessa cândida de um eco sem origem mas, mesmo assim, matriz de uma sinfonia alucinante e magnífica no acorde exacto da madrugada ausente. Eu não sei ler o mundo; mal sei senti-lo. Quando conheci Marcos Cesário, percebi que não há refúgio para a insatisfação criadora da sua alma solitária, mas é na ânsia de perfeição que a fé meticulosa e inocente na imagem circunscreve os sentidos e organiza (definitivamente) o olhar. No caminho de regresso ao próprio corpo, a memória inabalável de todos os seus dias; não há refúgio para uma mente que persegue o doce vagar de um abraço, a sílaba exacta do amanhecer, a imagem definitiva do sofrimento. Eis Marcos Cesário, poeta rigoroso das veredas do ser humano, disparando acasos com a mestria de um amor irreverente, atento ao que borra e confunde. Artista de ideias que as palavras nem sempre compõem, desvelando o tempo, compondo silêncios e iluminando impactos estéticos, eis o fotógrafo Marcos Cesário, ciente de que nem todas as cores, brilhos e contrastes conseguem representar o que, a olho nu, a alma humana decifra. Ele aqui está, iluminando contrastes e filtrando poeiras a caminho do eremitério da sua liberdade.

 

 

Coimbra, 4 de Junho de 2015

 

 

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